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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Da Amazônia a Taiji....





Pela terceira vez, se não me engano, eu parei para assistir o curta-metragem brasileiro, chamado The Red Alert – Slaughter of Amazon River (O Alerta Vermelho - O abate do Rio Amazonas), produzido em parceria com a AMPA - Associação dos Amigos do Peixe-boi, a LMA/INPA e por Eduardo Gomes (conhecido também como Nativo), que é também o narrador do vídeo. A AMPA inicialmente foi criada com o objetivo de proteger o majestoso peixe-boi do risco de extinção, mas o documentário, no entanto, não aborda a situação desse belíssimo animal, e sim de outro, tão simpático quanto, mas só que com um pouco mais de carisma, já que esse interage mais com a gente, como se fosse um cão dócil nos fazendo festa... falo de um esperto cetáceo, um mamífero aquático que é endêmico a Região Amazônica, o boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis), e que é o maior golfinho de água doce do mundo, também conhecido como boto-vermelho, e que assim é tratado nesse documentário. 

Acho que justamente por ter essa qualidade festeira, e por uma aguçada curiosidade, é que o boto-vermelho é uma presa fácil... e portanto, alguns homens, na qualidade de pescadores, se prevalecem disso, capturam-no e o matam. O vídeo, no entanto, e que bom por isso, revela que nem todos os pescadores adotam essa prática cruel

A priori, o pensamento que vem é que seria para o sustento deles, mas não é, pois que ninguém o come... ele é capturado para servir de isca para a piracatinga (Callophysus macropterus), ou urubu d’água... uma espécie de bagre facilmente encontrada nos rios amazônicos, e por isso, talvez, exista hoje essa procura tão grande por sua pesca, já que há em abundância. 

É de conhecimento geral que alguns pescadores não gostam do boto, por esse destruir as suas redes de pescas, justamente pela facilidade de pegarem os peixes que ali estão presos, e com isso, talvez, o tenham escolhido para servir de isca, mesmo que haja uma explicação cientifica para essa atitude, a de que o boto exala muito rápido um forte odor, depois de morto, e como as piracatingas são atraídas por carniça, a captura dessas é mais rápida ainda, usando esse processo. Como diz em um trecho do site da AMPA:
"Além de ilegal, imoral e cruel, a caça tem afetado drasticamente as populações dos botos da Amazônia. Há registros de caçadores, especializados em botos, que matam mais de 20 animais, por expedição, para serem comercializados com ribeirinhos".
O resumo do documentário é isso: a questão ambiental de que botos são mortos para servirem de isca, e isso pode levá-los a extinção, e a questão da condição social de que muitos sobrevivem somente através da pesca, por não terem opção de sustento, também não é esquecida... e aqui cabe um parêntese, que nesse pacote, jacarés, também são usados como iscas, e que também merecem ser salvos, é claro.

Nessa prática, com certeza, não são os pescadores que mais lucram, e sim os grandes frigoríficos de Manaus - AM. E que essa questão socioambiental tem que ser revista por governo e sociedade... e não somente os de lá, e sim de todo o país, afinal a nossa unidade tem que se fazer valer para alguma coisa que não seja somente o futebol

Gostaria de ver nosso povo unido em prol de causas assim, com a mesma intensidade que há para se defender e torcer por um time. Será que chegaremos a esse nível de consciência um dia? 




Quando parei para assistir esse “pequeno documentário”, mas que muito diz, eu o fiz por que cuidava de um outro assunto, meio que parecido com esse, só que lá do outro lado do planeta, precisamente em Taiji, sul do Japão, aonde de setembro até maio, acontece a matança anual e cruel de golfinhos de varias espécies, onde a mais visada é o golfinho-rotador (Stenella longirostris).

Essa prática, essa matança brutal, que é considerada por alguns habitantes de Taiji, como cultural, já foi muito bem abordada em um documentário espetacular: A Enseada (The Cove), lançado em 2009, e cuja repercussão foi tanta, que ganhou, entre outros prêmios, um Oscar em 2010 na categoria de melhor documentário do ano

O filme é dirigido por Louie Psihoyos, e mostra na prática um grupo de ativistas, liderados por Ric O'Barry, (ex-treinador de golfinhos e que chegou até a trabalhar em Flipper, um sériado da década de 1960). 

Este grupo enfrenta a hostilidade da Yakuza (a máfia japonesa), da policia e dos pescadores locais, tudo para que ninguém chegue aonde os golfinhos são mortos com requintes de crueldade, e assim não obterem o registro do extermínio sangrento desses animais para divulgação, pois como o vídeo mostra, o resto do povo do Japão não tinha conhecimento do fato. 

Os animais capturados são utilizados para diversos fins, um deles é a venda para os grandes aquários do mundo, que os expõem, o outro “era” a venda (ou doação) da carne para a merenda escolar, onde crianças eram servidas sem que se observassem, no entanto, o nível de toxinas presentes nesses animais, pois infelizmente, os golfinhos que mergulham nessas águas se contaminam com mercúrio, o que leva o documentário a tratar de uma outra questão, que ficou conhecida como o Desastre de Minamata, e que causou a doença que recebe o mesmo nome dessa baia, também localizada no Japão. A causa foi algo lá pela década de 1930 quando a indústria de nome Chisso, acobertada pelo governo japonês, lançava dejetos contendo mercúrio na Baía de Minamata

O documentário tem apelos e cenas marcantes... é uma aula e um exemplo na luta pela preservação dessa espécie simpática e inteligente


Ric O'Barry

Eu preciso fazer aqui um comparativo: tanto uma questão quanto a outra, mostra o descaso de alguns sobre como não preservar o que é merecedor de todo o respeito, a vida de seres importantíssimos, e também de como as pessoas alienadas aos fatos são conduzidas a realizá-los, sem que se perceba o quanto isso pode ser danoso ao ambiente e a elas próprias (só não entendo como são indiferentes a violência?!). 

A falta de orientação e a pouca condição financeira de muitos, permitem que uma minoria, mal intencionada e mais abastada, use, através de meios ardilosos, práticas que lhes deem o lucro certo, mesmo não importando a forma e os resultados prejudiciais causados por seus atos. E quando isso acontece, a condição social dos envolvidos é automaticamente analisada, e verdadeiramente até, como um “obstáculo”, para que a questão ambiental não seja prontamente autuada e solucionada... é onde ocorre a “pausa”, para que assim, aqueles que são os mandantes se aproveitem e estruturem novos artifícios judiciais, que quando elaborados, sejam impostos e prolonguem a causa, talvez até por anos... é a esperteza do capital, sobre a inocência (nem sempre) do necessitado e a incapacidade (ou conveniência) dos governos

Essa é uma luta que tem que ser vista de cima para baixo, mas como? Eu pergunto. Usando a justiça, como ferramenta plena, para que a aplicabilidade, não corrupta, das leis seja cumprida... o que me leva a uma outra pergunta: como de fato se consegue isso?! Respondo: Lutando sem desistência... pois a perseverança nos impulsionará de modo que a justiça que queremos empregar não tenha como ser falha... é isso que a AMPA nos ensina, é isso que fazem Eduardo (Nativo) Gomes e Ric O'Berry e equipe....

Links de sustentação, faça a sua pesquisa:

O documentário The Red Alert:

Conheça o site da AMPA, e saiba como ela está tratando essa questão e outras mais referente aos nossos mamíferos aquáticos – Contém a reportagem do Fantástico sobre a matança de golfinhos:

Pesquisa Google sobre o documentário A Enseada (The Cove):

Assista A Enseada (The Cove) - Documentário que denuncia a mortandade de golfinhos no Japão:

Pesquisa sobre o Desastre de Minamata:


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